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IA generativa – uma ameaça à advocacia?

Friday, September 29, 2023 - 15:44
Publication
O Jornal Económico

Podemos estar a empolar o impacto da IA Generativa a curto prazo, mas porventura a subestimar o seu potencial a médio e longo prazo.

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Em novembro de 2022, a OpenAI disponibilizou ao público o ChatGPT, baseado em um grande modelo de linguagem (large language model), o GPT 3.5. Ao contrário dos modelos de aprendizagem automática (machine learning) anteriormente predominantes, os grandes modelos de linguagem absorvem bases diversificadas de dados e originam resultados multifacetados.

Assistimos à difusão viral do ChatGPT e a um brusco aumento do investimento das grandes empresas tecnológicas na IA Generativa e da procura de aplicações que possam rivalizar com a OpenAI ou complementá-la em domínios específicos.

A IA Generativa, que permite produzir texto, código, imagens, sons ou vídeo, tem capacidades impressionantes. A cada dia surgem novos estudos sobre o seu impacto económico e sobre a sua aptidão para substituir tarefas humanas.   

Grandes sociedades de advogados internacionais trabalham com a OpenAI ou com empresas de legal tech para adaptarem este tipo de modelos e construírem soluções dedicadas, como fez a Allen & Overy, que anunciou a aplicação Harvey (de nome inspirado na série Suits). Outras usam soluções disponíveis, em versões pagas, e seguindo códigos de boas práticas especialmente cautelosos, para minimizar os riscos.

Um estudo da Goldman Sachs aponta os serviços jurídicos como uma das áreas com maior probabilidade de sofrer impacto da IA Generativa. Estará a advocacia à beira de uma disrupção do seu modelo de negócio, que se tem mantido genericamente inalterado? Ou, pelo contrário, continuará impassível e imune aos ventos que vão soprando?

Podemos estar a empolar o impacto da IA Generativa a curto prazo, mas porventura a subestimar o seu potencial a médio e longo prazo.

Não se regista ainda um impacto significativo na produtividade. Em parte, tal deve-se ao facto de que as aplicações não são isentas de erros e de “alucinações”, não podendo por isso substituir a intervenção humana na supervisão e sobretudo na revisão cuidadosa dos resultados. Basta lembrar o advogado norte-americano que propôs uma ação baseada em decisões judiciais, invocadas como precedente, que encontrou a partir de uma pesquisa no ChatGPT. Os casos citados pura e simplesmente não existiam.

Estas aplicações não são verdadeiramente inteligentes. São fundamentalmente resultado de modelos probabilísticos. Os resultados são verosímeis, mas não necessariamente verdadeiros. Este caminho de investigação vai certamente aperfeiçoar-se, permitindo ganhos de produtividade, e o seu uso correto será obrigatório para quem quiser manter-se no mercado. São ferramentas essenciais, mas não chegaram (ainda) os advogados robôs que vão tornar obsoleta a advocacia. 

Luís Barreto Xavier, Professor Convidado da Universidade Católica Portuguesa e Consultor da Abreu Advogados