Press News & Events

A jornadas dos jovens

Thursday, August 3, 2023 - 12:04
Publication
Diário de Notícias

Por estes dias, a Jornada Mundial da Juventude, presidida pelo Papa, ocupam o espaço noticioso.

Centenas de milhares de jovens vieram colorir as ruas das nossas cidades, em especial de Lisboa, com uma energia e alegria muito especiais.

A jornada dos jovens

Não por acaso, a Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, aproveitou a oportunidade para traçar um retrato da juventude portuguesa. A conclusão aponta para a longa e sinuosa jornada dos jovens.

Por um lado, estes dados confirmam que temos hoje a juventude (dos 15 aos 24 anos) mais qualificada de sempre: 9 em cada 10 jovens entre os 20 e os 24 anos têm, no mínimo, o Ensino Secundário, e Portugal é o 7º país da UE com maior proporção de jovens com Ensino Superior.

Os jovens portugueses têm competências digitais acima da média europeia, e estão em 5º lugar entre os que mais utilizam as redes sociais e leem notícias online; ou que os hábitos de saúde deste grupo etário parecem estar a melhorar - diminuiu a percentagem de jovens que afirma nunca praticar desporto (um em cada 3) ou que fuma diariamente (9%).

Apesar destes aspetos positivos, preocupações com o acesso à habitação e ao emprego continuam a afetar os jovens: 6 em cada 10 empregados têm vínculos de trabalho precários, e Portugal é o 7º país da UE com maior taxa de desemprego jovem, afetando 1 em cada 5 jovens no mercado de trabalho.

Estamos a investir na geração mais qualificada de sempre para depois não oferecer condições de trabalho e de habitação, o que leva à sua saída do país.

Muito impressionante é que a esmagadora maioria dos jovens (95%) viva com os pais, valor que traduz uma mais difícil independência, sobretudo considerando que este valor era de 86% em 2004. Portugal é o 4.º país da UE, a seguir à Itália (97%), Croácia (96%) e Espanha (96%), em que mais jovens vivem com os pais, acima da média europeia (83%). Na Suécia e na Dinamarca, os jovens que vivem com os pais são menos de metade do total.

Parece existir aqui uma contradição, mas ela é apenas aparente.

Na verdade, estamos a investir na geração mais qualificada de sempre para depois não oferecer condições de trabalho e de habitação, o que leva à sua saída do país.

É verdade que, olhando para o saldo migratório, verificamos que, desde 2019, entram no país mais jovens do que aqueles que saem para viver no estrangeiro. Mas nem sempre foi assim: de 2010 a 2018 o saldo foi negativo. A isto acresce o facto de os jovens que entram terem, em média, menos qualificações que os que saem, gerando assim um saldo negativo de qualificações.

A Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou um grande estudo, a que chamou Do made in ao created in: um novo paradigma para a economia portuguesa, coordenado por Fernando Alexandre, no qual se identificavam os maiores obstáculos ao desenvolvimento do país, e também algumas possíveis soluções.

Ali podemos encontrar pistas sobre as qualificações dos portugueses, em especial dos gestores, o desenvolvimento da nossa economia, e o crescimento das nossas empresas.

Há aqui um enorme caminho a fazer. É essencial garantir que os jovens encontram em Portugal condições para viver, trabalhar e constituir família. Este é um objetivo central de todos: decisores políticos, empresas e sociedade.

Mas é necessário ultrapassar os obstáculos endémicos, colocar o país no caminho do crescimento. Só é possível distribuir a riqueza que existe, não a que não existe. E a riqueza é produzida pelas nossas empresas e pelo dinamismo da nossa economia.

Aproveitemos este tempo dedicado aos jovens para refletir sobre tudo isto, sobretudo para garantir que, passada a Jornada, podem aqui ficar, contribuindo para um país melhor para todos.

Prof. Gonçalo Saraiva Matias